Críticas



Símiles - Denise Mattar - 2018

Mary Carmem Matias encara a escultura como um contínuo desafio, pois vive o permanente conflito entre as formas de expressão que deseja alcançar e a luta contra as propriedades físicas dos materiais. A pesquisa da artista converge para uma permanente busca da fluidez do movimento, e há anos, ela consegue domar, com suavidade, a dureza do aço e do alumínio, produzindo formas que se entrelaçam e expandem em curvas, relacionando-se de maneira insinuante e sensual com o espaço.

Saindo da zona de conforto proporcionada pelo domínio do material, Mary Carmen se propôs a dilatar ainda mais os limites do confronto entre expressão e matéria. Arriscou-se a buscar uma interação entre metal e pedra, e a concretizou utilizando a cintilação do aço e a densa alvura do mármore.

A busca pela harmonia entre brilho e rocha esbarra, imediatamente, na natureza de suas diferentes constituições e no processo necessário para a materialização das formas. No metal, há o embate da dobradura, da torção e da abrasão. Na rocha a escultura se constrói pelo desbaste, pela remoção do que não se quer, pelo desvelamento de uma forma, que, segundo Da Vinci, já está lá. Essas dessemelhanças são determinantes para os diálogos que Mary Carmen busca estabelecer e consolidam possibilidades instigantes.

Em algumas obras o aço brota do mármore, como se dele tivesse nascido, lançando-se no ar com a poesia luminosa da linha. São exemplos dessa interação, que se faz pela complementaridade, trabalhos como Aurora, Contrastes, Libertação, Integração, Sustentação e Movimento. Outras formas se contrapõem, duplicadas, encarando-se, comparando sua similaridade na diferença. Em Geminados, Entrosamento e Apoio, Mary Carmen elabora uma relação de cuidadosa volumetria que equaliza a densidade da pedra e a brilhante superfície do metal. Com leveza e precisão, a artista determina o ponto no qual essas formas se tocam, alcançando delicado equilíbrio.

Mas há outro tipo de encontro, no qual os materiais se abraçam e se enroscam como amantes; com força e densidade. Resistência, Brotando, Prostração e Abraço estabelecem uma relação de interpenetração, de encantamento e sedução. A rocha submetida entrega-se, e sedutoramente enleia-se no metal.

Elevação e Energia são solitárias sentinelas que observam esses múltiplos relacionamentos se desdobrarem num fluxo incessante, no qual Mary Carmen Matias busca - e encontra - a síntese e a harmonia entre opostos.

Expansão do Espaço - Cynthia May Richard - 2017

As obras da artista plástica Mary Carmem Matias sugerem o espaço como extensão plena, sem limites, muito além do tridimensional, expandindo-se por todo o universo à sua volta como as nebulosas, esculturas cósmicas, que permitem infinitas possibilidades de movimentos e formas.

Ao acompanhar os contornos de cada peça, nosso olhar vai construindo uma nova perspectiva de leitura que rompe paradigmas da percepção cotidiana. E somos levados lentamente a estados interiores expandidos, que vão se revelando nos percursos modelados no aço e no alumínio, entre brilhos e sombras.

A artista esculpe imagens no espaço com pleno domínio da sutileza na manipulação de volumes e proporções, concebendo combinações de formas sinuosas, como os movimentos de uma dança, para evocar equilíbrio e harmonia.

As obras não são apenas para serem apreciadas, mas absorvidas como um ‘jeito de corpo’ do nosso interior, mais musical, mais flexível, mais intenso e amplo.

Mary Carmen nos conduz, pela experiência estética, ao centro do UNIVERSO que habita em nós. Na EXPANSÃO DO ESPAÇO da artista, nossa reconexão com os movimentos da vida.

Modulações - Denise Mattar - 2017

A escultura em metal é um segmento da arte que exige, mais do que outros, um profundo domínio de fatores criativos e construtivos. Volume, espaço, proporção, luz e gravidade precisam ser equilibrados na concepção da obra e na sua concretização. Dos esboços à dinâmica do gesto tudo se constrói em etapas, até chegar a um processo parcialmente industrial, que necessita um cuidadoso acompanhamento para que o resultado final não traia a criação. Mary Carmen aceitou o desafio e, suavemente, doma a dureza do aço e a frieza do alumínio, criando formas curvas que se expandem e se entrelaçam, relacionando-se de maneira insinuante e sensual com o espaço.

Em texto de 2011, o crítico Jacob Klintowitz apontava algumas características do trabalho da artista, que perduram até hoje: “O equilíbrio e a elegância das esculturas de Mary Carmen Matias emocionam porque são capazes de mostrar o magnífico desenvolvimento da linha e a sua transformação em volume, a criação do espaço e o nosso envolvimento neste universo subitamente inventado.” Mas , se o trabalho da artista continua equilibrado e elegante, ele também mudou, tornou-se mais atrevido - criou força e densidade. Atualmente, a sua pesquisa, concentra-se em dois grupos de obra, que se diferenciam na execução, mas são complementares na criação: a ousadia do deslocamento da fita, que se converte em voo, e a luminosidade poética da linha que se enrosca no espaço.

Mary Carmen estuda possibilidades desenhando formas no papel, mas seu trabalho começa verdadeiramente com o gesto, com a manipulação de fios, para criar as maquetes que são a base de suas esculturas. E é desse gesto, desse diálogo das mãos com o material, que nascem suas formas. São torções, distensões e retesamentos cingindo o ar. São gestos quase sensuais, que apertam, enrolam, acariciam e enovelam a linha. Depois vem a escolha do elemento que irá corporificar esses movimentos: alumínio ou aço? tubos finos ou encorpados? fitas ou chapas? E cada escolha revela de forma diversa a plasticidade do espaço. Vem então a materialização: o embate, a dobradura, o corte, a fundição: o metal domado. E finalmente a escultura plena, com reflexos nas curvas, brilho nas formas e a luz escorregando pelas linhas.

Infinito - A Dança das Formas - Patricia Cicarelli - 2015

No limite, o homem é o próprio cosmos. Se viajássemos pelos espaços vazios da matéria, ora pelo interior de uma estrela ora pelo nosso corpo, encontraríamos sempre a mesma coisa, aquilo que essencialmente somos. O trabalho da artista plástica Mary Carmen nos leva a refletir sobre os valores desta essência, sejam eles os primordiais que norteiam nossa existência ou aqueles mais complexos, esteio das preciosas relações afetivas. Para chegarmos a este ponto de convergência, devemos observar a sutileza das obras da mostra, sugerindo uma abstração do sentido da vida através de sua visão humanística e histórica.

O público vivenciará uma experiência singular na exposição INFINITO – A Dança das Formas, por que esses INFINITOS podem se multiplicar a partir da percepção que cada um terá no contato com a obra da artista. Ela extrai a maleabilidade do material rígido para enlear a humanidade ao universo, levando-os ao limite frágil e elementar da existência, transmitindo a poesia do seu trabalho. Muito além da meticulosidade e perfeição de sua técnica, a obra de Mary Carmen transcende o corpo escultórico e estabelece um diálogo inequívoco que só a arte é capaz.

O trabalho de Mary Carmen nos causa a sensação de uma maturidade inata na sua criação que se revela nas linhas, volumes, movimentos e entrelaçamentos que ela propõe em cada escultura. Deparar-se com as peças desta exposição é experimentar um estado de elevação que nos desloca no espaço-tempo cósmico que a artista nos propicia através de sua arte, conferindo-nos mais humanidade.

As esculturas de Mary Carmen levam nossos sentidos a apreender outras dimensões que dispensam definições absolutas. Ao conceber esta exposição, o curador Robert Richard, presidente da ABAPC – Associação Brasileira de Artistas Contemporâneos, quis propor ao público o contato com o infinito, a arte no seu limite, em que a fusão dos sentidos encontra o seu lugar e ao mesmo tempo um corpo, a forma, os valores e a reflexão sobre o fato de que Ser, Sentir e o Fazer nos concebem e nos transformam.

Mary Carmen e a poética dos volumes - Jacob Klintowitz - 2011

O equilíbrio e a elegância das esculturas de Mary Carmen Matias emocionam porque são capazes de mostrar o magnífico desenvolvimento da linha e a sua transformação em volume, a criação do espaço e o nosso envolvimento neste universo subitamente inventado. No período anterior, o dos volumes compactos, já se notavam estas qualidades. No atual, o do voo no espaço, esta característica se tornou mais evidente e a sua escultura aproximou-se, cada vez mais, da luminosidade poética da linha.

A escultora Mary Carmen pertence a uma estirpe rara de artista, pois constituída por duas linhas quase impossíveis de se cruzarem e que são os fundamentos de sua atuação. A primeira destas linhas é a própria essência do seu fazer, o cerne de sua natureza sensível. Mary Carmen tem a imediata intuição da forma como se a percebesse holograficamente. Esta intuição tem para ela a certeza de uma verdade longamente buscada, é o núcleo encontrado, eliminadas todas as outras vertentes. É o que confere serenidade ao seu caminho. E o seu trabalho consiste, a partir desta visualização, em desenvolver virtuosamente a forma no espaço e em viabiliza-la tecnicamente: equilíbrio material, escolha de suportes adequados, criação de moldes e a passagem por fundições.

A segunda linha constitutiva de sua atividade tem uma verificação inicial de caráter histórico. Mary Carmen Matias é uma artista tardia, ou seja, torna-se artista, exerce a sua atividade, incorpora os procedimentos, o aprendizado, as dúvidas e a dedicação integral, já numa idade madura. Existem muitos exemplos na história das artes e na literatura de artistas tardios. Habitualmente o desta que, ainda mais na nossa sociedade de espetacularização, se dá aos prodígios precoces, como são os casos de Amadeus Mozart e de Pablo Picasso. Uma artista de extração tardia traz para a sua atividade o conhecimento do mundo, a experiência da meditação, o domínio dos sentimentos e a discriminação entre o fundamental e a superficialidade.

A combinação da intuição fulminante e do início tardio cria uma inviável constelação que, contudo, existe. A intuição produz artistas muito jovens, destemidos, impulsionados por esta força magnífica. É anterior a racionalidade. É puro Dioniso. A serenidade produz artistas equilibrados, severos, essenciais. É o mundo de Apolo. Na obra de Mary Carmen Matias temos esta atração superior, a união de Dioniso e Apolo.

Reflexões. Os caminhos da forma - N. Vlavianos – 2010

É uma tarefa muito difícil apresentar uma pessoa que trabalha contigo no dia a dia nas oficinas de escultura e que agora está expondo o resultado desse trabalho. Só posso dizer que fiquei muito feliz e emocionado ao contemplar o produto do esforço da Mary Carmen, aqui revelado na sua totalidade.

Sobre o significado e o valor da sua obra plástica temos o testemunho de Jacob Klintowitz que analisa com muita acuidade as várias fases do trabalho de Mary Carmen. Estou de acordo com o renomado crítico e fico muito contente de participar a sua opinião.

Gostaria de acrescentar algo sobre o trabalho nos ateliers e sua importância na formação dos novos artistas. A participação e colaboração entre os alunos são fatores muito importantes do aprendizado e a convivência física e mental produz estímulos capazes de despertar talentos e criar as condições para que isso aconteça.

A Mary Carmen esteve sempre entre os mais entusiasmados e estas obras aqui presentes são o resultado do amor, dedicação e empenho na prática da escultura.

Parabéns Mary Carmen

Reflexões. Os caminhos da forma - Jacob Klintowitz – 2010

Uma figura altiva e hierática, erecta, que presumimos um guerreiro com a sua lança, um guardião da cidade, construído no clássico bronze, estruturado num desenho preciso que nos oferece uma deliciosa percepção, pois é rápido, dinâmico e econômico, como é da essência da estética contemporânea, e nos remete imediatamente ao paleolítico: poderia estar escrito na pedra. O prazer vem do paradoxo.

Ou um grupo humano, um bloco organizado formalmente de proporcionalidade monumental, figuras em diversas alturas, a nos sugerir uma família, se oferecendo também como símbolo do gregário, na curiosa perspectiva de precipitar um ser pura forma ou um padrão ético. Escultura e filosofia, Arte e metáfora. O que parece arcaísmo numa época que se pretendeu instaurar o relativismo absoluto de todos os valores, mas nada pode ser mais atualizado.

Em Mary Carmen Matias há vários indícios a sinalizar múltiplas e futuras pesquisas e a exploração visual a que ela se dedica tem um ilimitado campo de atuação. Entretanto, existem duas linhas claramente amadurecidas que se apresentam num elevado nível de realização. Uma delas é a objetividade áspera de seus guerreiros, esculturas que incorporam como procedimento básico o tratamento da matéria de maneira primordial, acentuando o seu aspecto original, duro, ríspido, como se fosse in natura. A segunda linha é a que procura e encontra formas orgânicas, curvas, arredondadas, em figuras em grupo ou individuais, estruturadas numa visualidade tátil e de relações harmônicas. Nos dois casos, a contribuição da artista é marcada pelo acento na reflexão e na sensibilidade extremada.

O que impressiona na obra de Mary Carmen Matias, talvez antes de qualquer coisa, são dois vetores raros e qualificadores. O primeiro é a escultora sempre se colocar questões estéticas difíceis e que exigem muito dela. É uma característica do verdadeiro artista, pois este sempre se recusa ao saber burocrático e procura aprofundar o seu fazer, mesmo à custa de enorme sacrifício. O segundo vetor, é o caráter clássico dos temas escolhidos: o ser como guerreiro espiritual, a família humana e o homem feito à semelhança do universo, com o seu corpo tornado uma forma enovelada e cósmica.